sábado, 20 de novembro de 2010

UMA HOMENAGEM SINGULAR DOS ALUNOS DE DIREITO DA UNIT- TURMA 'N 01' 2° PERIODO

JOSÉ SEVERO DOS SANTOS
Severo d’Acelino


Nasceu no bairro Siqueira Campos (antigo Aribé), em Aracaju, no fim dos anos 40, filho de Acelino Severo dos Santos e Odília Eliza da Conceição.
Ativista dos Direitos Humanos, concentrou o melhor dos seus esforços na defesa dos direitos humanos e civis, principalmente dos afrodescendentes, como militante do movimento negro, tendo como objetivo principal promover a visibilidade da sua raça, através dos valores e das tradições culturais. Baseou praticamente toda sua luta nesta área, mediante a aplicação da chamada Pedagogia Inclusiva, oferecendo elementos para reflexões e debates das questões e condições do negro sergipano, já que defende a tese de que é indispensável a preservação da cultura dos seus ancestrais, evitando-se a todo custo o que ele chama de “etnocídio cultural”.
Iniciou a vida profissional como militar, tendo pertencido aos quadros da Marinha de Guerra do Brasil, encontrando-se atualmente na reserva.
Suas primeiras atividades na defesa dos direitos civis da raça negra foram iniciadas no ano de 1968, tendo criado, então, o Grupo Regional de Folclore e Artes Cênicas Amadorista Castro Alves, depois transformado na Casa de Cultura Afro Sergipana.
Apesar de não haver cursado a Universidade, trata-se de intelectual de grande qualidade, com atuação em várias áreas do conhecimento humano, quer como ator, como poeta, como jornalista, como professor, como escritor, mas, principalmente, como pensador e defensor incansável das suas ideias e pontos de vista relativos às questões raciais.
Na qualidade de ator teve atuação destacada no filme “Chico Rei”, de 1985, onde atuou com grandes nomes do cenário nacional: Milton Nascimento, Wagner Tiso, Clementina de Jesus, Grupo Vissungo e que contou com a participação de Fernando Brant e Naná Vasconcelos, sob a direção de Walter Lima Jr. Atuou também no filme “Espelho d’Água”, de 2004, contracenando com Fábio Assunção, Carla Regina, Francisco Carvalho, Charles Paraventi, Aramis Trindade, José Ricardo e Analu Tavares, sob a direção de Marcus Vinícius César. Além disso, atuou na minissérie “Teresa Batista”, da Rede Globo de Televisão, baseada na obra “Teresa Batista Cansada de Guerra”, do grande Jorge Amado. Montou e dirigiu as peças Navio Negreiro, Vozes D’África, De Como Revisar Um Marido Oscar, Terra Poeira In Cantus, Algemas Partidas, Save Our Sur, Dança dos Inkices D’Angola, Água de Oxalá, Iybó Iná Iyê e Suíte Nagô.
Como poeta, escreveu as obras “Panáfrica África Iya N’la”, “Quelóide” e “Visões do Olhar em Transe”, estes dois últimos ainda não publicados.
No desempenho da atividade jornalística, além de publicar artigos e ou documentos em vários órgãos da imprensa, editou o jornal Identidades, que tinha as seguintes pretensões, nos termos das “Palavras Necessárias”, constantes da segunda página do nº 0, Ano I, de maio de 2001:
1) Funcionar como instrumento ativo de pregação da cidadania plena, independentemente de cor, credo religioso ou convicção política.
2) Atuar na divulgação da cultura do Estado de Sergipe, com ênfase especial aos artistas negros e/ou descendentes, carentes de um veículo de divulgação que lhes distinga com maior amplitude.
3) Defender intransigentemente os direitos das populações discriminadas.
4) Discutir políticas públicas para atenuar os conflitos existentes no âmbito da saúde, da melhoria de vida, mercado de trabalho, emprego e renda, fome, educação, segurança, terra e moradia.
5) Dar maior visibilidade à posição e importância social da raça negra, divulgando sua cultura e sua arte, rememorando sua ascendência africana e todo um legado histórico que a sociedade não pode nem deve esquecer.
Em consequência das dificuldades financeiras que, tanto nosso homenageado quanto a “Casa de Cultura Afro Sergipana”, sempre enfrentaram, esse jornal foi publicado somente até o número 5, em julho de 2002. Nesse órgão defendia com extrema pertinência e total convicção os seus pontos de vista em relação à exclusão social dos negros e todas as ideias pelas quais tem lutado durante toda sua vida.
Como professor, além de criar o “Projeto Cultural de Educação João Mulungu vai às Escolas”, a que deu ampla divulgação e ministrou cursos em todo o Estado de Sergipe, quando não patrocinado pelo Poder Público fazia-o por sua própria conta, escreveu os Cadernos Pedagógicos com a Série Testes, os quais deram origem ao livro “Pedagogia Afro de Educação Inclusiva – Livro de Testes”, com 5.773 questões, todas relacionadas às causas que defende, obra destinada ao Ensino Fundamental, Médio e Concursos.
Como escritor, além das obras poéticas, escreveu outras também representativas, dentre as quais destacamos “Mariow”, livro de contos que objetivava consolidar a memória coletiva da identidade cultural.
Consta do seu currículo o recebimento de várias homenagens. Dentre essas, destacam-se: Cidadão Laranjeirense; Bastião do Movimento Negro em Sergipe, pela Secretaria Estadual de Cultura; Diploma Memorial do Teatro Sergipano; da Secretaria de Justiça de Sergipe o Troféu de Igualdade Racial; Medalha de Mérito Cultural Ignácio Barbosa, pelo Município de Aracaju e o Troféu CURTA-SE.
Homem de sólida cultura geral e de reconhecida competência, foi Conselheiro municipal e estadual de Cultura e Conselheiro Nacional do Memorial Zumbi.
Em sua tenaz e persistente luta contra o racismo em Sergipe, tem desenvolvido diversas ações junto ao Poder Legislativo, intercedendo na produção de leis capazes de atenuar os conflitos decorrentes da falta de políticas públicas e dar visibilidade ao coletivo negro sergipano, com ênfase no preto e seu arquivo humano e patrimônio cultural, como o tombamento do “Terreiro Filhos de Obá” e o reconhecimento de JOÃO MULUNGU e QUINTINO DE LACERDA como Heróis Negros Sergipanos.
Atuou na autoria dos projetos de Inclusão da Cultura Negra nas grades das disciplinas do ensino fundamental e médio do Estado, a primeira votada pelo Conselho Estadual de Educação em 86 e a segunda pelo Legislativo Estadual em 99.

Sobre Severo d’Acelino, transcrevemos apenas três das incontáveis referências que encontramos a seu respeito, por dizerem bem do homem a quem hoje homenageamos:
De Jorge Lins, sergipano de Aracaju, ator com 37 de experiência, formado em Ciências Jurídicas e Sociais pela UFS, produtor de eventos, autor e diretor de Teatro e diretor da “Oficinas do Ator”:

“Para fortalecer ainda mais a pequena biografia de Severo, vou reproduzir texto do blog do professor Wagner Lemos. “Jose Severo dos Santos. Nasceu em Aracaju, no Aribé (Bairro Siqueira Campos), em final dos anos 40, descendente de família tradicional da cultura negra, dos canaviais de Santa Rosa e Riachuelo, a resistência religiosa em Aracaju. Nasceu de Odília Eliza da Conceição e de Acelino Severo dos Santos, neto e seguidor da famosa Iyalorisha Mãe Elza, afilhado do tão famoso Babalorisha Alexandre de Laranjeiras (SE), falecidos.
Militante ativo da resistência e tradição da cultura afro-sergipana, busca no resgate da memória tradicional, a preservação dos valores étnicos das diversas culturas introduzidas em Sergipe pela escravidão.
Em plena repressão política e social verificada em 1968 no Brasil, instala-se em Sergipe o Grupo Regional de Folclore e Artes Cênicas Amadorista Castro Alves, e posteriormente, CASA DE CULTURA AFRO-SERGIPANA, sua nova versão e vê na Religião Orixá (Candomblé) o ponto de irradiação e resistência da cultura negra”.

Assim também escreveu Rosemere Ferreira da Silva, no artigo “Severo d’Acelino e a produção textual Afro-brasileira”, publicado no Portal GELEDÉS INSTITUTO DA MULHER NEGRA:

A produção cultural do escritor Severo D’Acelino em Sergipe está voltada para a discussão da afrodescendência como uma das principais formas de questionamento, na sociedade contemporânea, que envolve a participação direta de afrodescendentes nos mais diferentes setores sociais do Estado. A poesia escrita por D’Acelino bem como os artigos publicados e os projetos educacionais coordenados pelo escritor refletem uma preocupação constante em educar os sergipanos na direção de uma cultura produzida para marcar a importância da literatura afro-brasileira como um lugar de expressão significativo que problematiza as hierarquias sociais construídas, as relações de poder disseminadas socialmente, a formação de identidades, o combate ao preconceito e a discriminação racial e de gênero e ainda, a valorização da autoestima como principal ponto de partida na luta contra a formulação de estereótipos.

De outra parte, o jornalista, escritor, pesquisador e historiador sergipano Luiz Antonio Barreto, assim escreveu, no Artigo “A Pedagogia dos Testes”, publicado no jornal Gazeta de Sergipe, edição do dia 20 de fevereiro de 2004, analisando a obra “Pedagogia Afro de Educação Inclusiva” e sobre sua pessoa:

Era crença que bastava um teste para examinar toda a inteligência. Talvez estribado nesse modo de pensar a importância dos testes Severo D’Acelino tenha preferido fazer do seu Pedagogia Afro de Educação Inclusiva um livro de testes, com 5.773 questionamentos, dentro do “Projeto Cultural João Mulungu vai às Escolas”.
Já vai alongada a participação de Severo D’Acelino na vida cultural sergipana. Artista, foi o Chico Rei no cinema, líder de grupo cênico, pesquisador, benfeitor das casas de culto, um dos mais destacados nomes no debate da causa negra, Severo D’Acelino vem procurando influir nas mentalidades, recompondo o tecido da história dos negros em Sergipe, sob a ótica múltipla da religião, do trabalho, da luta política, da resistência e das manifestações artísticas, culturais e lúdicas.

E mais adiante:

Este Livro de Testes de Severo D’Acelino responde, de algum modo, às preocupações dos pesquisadores da cultura negra, especialmente em Sergipe. Cada questão remete a um tipo especial de conhecimento, que revisita capítulos importantes da história, da geografia, e da cultura sergipana. Sem a leitura prévia de uma bibliografia que o próprio livro oferece, e sem a pesquisa, dificilmente alguém pode aventurar-se em responder a todos os questionamentos do Livro de Testes.

Isto é apenas um pequeno retrato de Severo d’Acelino e sua obra, que indubitavelmente passará para a posteridade. Quem o conhece sabe da ênfase, da pertinácia, das atitudes firmes, da segurança, da intransigência e da força moral com que ele defende sua raça, suas ideias, seus princípios e seus pontos de vista mais caros. Com ele nós podemos não concordar. Mas jamais ficaremos indiferentes.

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